05/04/2016 Gabriel Derisio

Emojis e a comunicação: uma revolução na linguagem escrita

A origem exata da comunicação humana sempre foi uma grande incógnita para os cientistas especialistas. Porém, por mais que não consigamos precisar sua data de seu nascimento, entendemos que mais que uma origem, a comunicação sofre constantemente um processo de evolução.

A ciência linguística nos apresenta a evolução da comunicação desde os gestos e rabiscos até a linguagem falada, prensas e internet. E como toda a evolução, a busca pela eficiência é evidente.

A comunicação humana vem ficando a cada década mais eficiente, e junto a esse processo, introduzindo um poder de síntese a si mesma. E através desses processos, notou-se um poder evidente de mudança da sociedade através dos anos. Ainda mais com a comunicação sendo cada mais minimalista, e portanto eficiente e conectada.

Isso trás um poder nunca visto antes da internet, de propagação e eficiência, uma importante mistura perfeita que cria uma importante arma para a sociedade usar de acordo com sua ética.

A partir dos anos 2000, com a massificação e popularização da internet no Brasil e no mundo, os sites estáticos, que antes eram apenas depositório de arquivo, foram perdendo espaço para as redes sociais.

O que antes era acessado apenas para leitura, se transformou na web 2.0, onde a interação entre o usuário passou a ser chave nos meios digitais.

Atualmente os usuários de internet têm gastado cada vez mais tempo interagindo com outras pessoas via redes sociais. Segundo o ComScore, os usuários do Facebook gastam em média 405 minutos por mês na rede. O Brasil sempre se demonstra um dos povos mais adeptos das redes sociais no mundo. Segundo a pesquisa “Futuro Digital em Foco BGrasil 2015”, os internautas brasileiros passam, em média, 9,2 horas por mês nas plataformas sociais. Além disso, o país é campeão no consumo de social media, seguido por Filipinas, Tailândia, Colômbia e Peru.

O início oficial da comunicação na internet se deu no ano de 1971 com o envio do primeiro e-mail entre dois computadores. Porém o termo “rede social” começou a fazer mais sentido em 1985 quando a empresa pioneira no ramo America On-line (AOL), criou um sistema que permitia que as pessoas criassem perfis virtuais e descrições de si mesmas na internet, além da interação entre comunidades. Após alguns anos, em 1997, a mesma empresa criou um sistema de mensagens que pode ser considerado o antecessor do Whatsapp ou Facebook Messenger.

Em 2000 com a popularização da internet, como relatado anteriormente, surgiram serviços mais populares e conhecidos, devido ao aumento significativo de usuários na rede. Foi o início do Fotolog em 2002 que era uma rede social baseada na publicação de fotos e frases como legendas, sobre os sentimentos ou emoções. E depois, o Friendster, considerado por muitos a verdadeira primeira rede social, por permitir que se tivesse espelhado no mundo virtual as amizades do mundo real, através da conexão entre os perfis de usuários. Essa ferramenta chegou a atingir três milhões de adeptos em três meses, um feito para a época.

Em seguida, ao longo de 2003, foram lançadas redes sociais presentes até hoje no mundo virtual, como o LinkedIn, voltado para relacionamentos profissionais e o MySpace, que já não existe mais, que no princípio se parecia com o Friendster, mas depois se transformou numa rede social para músicos e bandas.

Apesar de todos os avanços desde 1971, o ano de 2004 pode ser considerado o ano de maior mudança nas redes sociais. Nesse ano, foram criados o Flickr, o Orkut e o Facebook, criado em 2004, dentro da Universidade de Harvard, que começou a fazer sucesso em 2006, e é a maior rede social existente até hoje.

Junto com o avanço das redes, surgiu a necessidade de se unificar a comunicação, mas essa necessidade não é nova. No ano de 1887, um médico chamado Ludwik Lejzer Zamenhof criou o princípio da língua Esperanto. O objetivo foi criar uma forma de comunicação universal, que não substitua as linguagens pré-existentes localmnente, mas que difunda a comunicação entre a populações locais com outras remotas. Isso facilitaria desde viagens de turismo, negócios até relacionamentos entre pessoas de diferentes nacionalidades. Não houve a intenção de eliminar outras línguas, sendo que foi inclusive provado que o Esperanto auxilia na aprendizagem dos demais idiomas.

Mas o advento do Esperanto não bastou para a internet. Os emojis (palavra japonesa, formada por “e” – imagem e “moji” – personagem) foram criados década de 90 para suprir essa lacuna. Shigetaka Kurita é considerado o criador dos Emojis, Kurita trabalhava na maior empresa de telefonia de celular do Japão na época, a NTT DoComo. Nesta empresa, o japonês criou o que pode ser chamado de primeiro emoji da história.

Na época em que os pagers eram a grande moda entre os adolescentes do Japão, Kurita criou junto à empresa um símbolo de coração, para dar mais emoção às mensagens. O símbolo foi um sucesso junto aos consumidores, porém, logo depois a ideia foi descartada pois a empresa começou um alinhamento mais forte com executivos e os pagers se tornaram um produto mais corporativo, dando fim ao símbolo de coração.

Anos depois, em 1998, o japonês criador dos Emojis foi à São Francisco para ver de perto o lançamento do PocketNet da empresa AT&T, considerado o primeiro smartphone (celular com internet) do mundo. O celular tinha funções inovadoras, como a previsão do tempo, acesso a e-mails e etc. Porém, o display era donimado por textos. Foi quando Kurita se lembrou do coração criado por ele para a DoComo. Ele então se reuniu com sua equipe e criou um conjunto de 176 imagens de 12×12 pixels que poderia expressar todas as emoções humanas.

A maior parte dos símbolos Emojis é auto-explicativa, mas há algumas que parecem não fazer sentido algum. Isso para nós e não para japoneses, já que muitos dos ícones têm relação direta com a cultura do país. O pedaço de cocô, por exemplo, é bastante usado por nós quando queremos indicar reprovação a algo comentado ou postado. Mas ele não está rindo à toa: no Japão ele significa boa sorte.

É por isso que há tantos símbolos de comida japonesa, como o de camarão frito e o de sushi. Também fazem parte dos elementos nipônicos os “hotéis do amor” (o que seria correspondente ao nosso motel, muito popularizados no país), o duende japonês e as bonecas japonesas.

Todos eles estão na lista do Consórcio Unicode, que é uma organização mundial que padroniza a codificação, representação e manipulação de texto através de sistemas de escrita digitais. A instituição recentemente adicionou 250 emojis novos, causando furor principalmente pelos aguardados “dedo do meio estendido” e o “vida longa e próspera” de Star Trek.

A Apple, empresa norte americana líder na venda mundial de smartphones, é a principal responsável pela disseminação dos emojis fora do Japão. Por lá, os símbolos já eram extremamente populares quando foi lançado o primeiro iPhone, que não tinha emojis. Isso causou rejeição no mercado local, fazendo com que a Apple adicionasse os caracteres na segunda versão do sistema operacional.

Porém, foi apenas a partir da atualização do sistema para o iOS 4 que eles se tornaram disponíveis para todos os usuários mundiais, que imediatamente adotaram o recurso. A fama chamou atenção de Google e Microsoft, que adotaram os emojis em seus respectivos sistemas operacionais, Android e Windows Phone.

Para meu trabalho, realizei um experimento com 20 pessoas. Elas aderiram a um grupo na rede social de mensagens instantâneas Whatsapp, e nesse grupo por três dias, só podiam se comunicar via emojis, sem poder escrever uma palavra sequer. Essa pesquisa encontra-se nos apêndices deste trabalho.

Como não podiam utilizar a linguagem escrita, algumas pessoas entendiam de maneira diferente os emojis e o significado das frases variavam.

Isso mostrou que a comunicação por emojis, apesar de ser codificada mundialmente, ainda possui múltiplas interpretações. Porém, isso também ocorre com as línguas tradicionais, o que chamamos de ruído de comunicação.

Ruídos na comunicação são quaisquer elementos que interfiram no processo da transmissão de uma mensagem entre um emissor e um receptor. Eles podem ser resultados de elementos internos e externos.

No caso dos emojis eles provocam ruídos pela possibilidade de dupla interpretação, que ocorrem quando ouvimos uma mensagem que possui um significado diferente e subjetivo para cada pessoa.

Mas, além dessas novas formas de comunicação, talvez um dos pontos mais importantes dessa nova revolução seja a reorganização dos hábitos de socialização que a Internet proporciona. A análise da Internet como ferramenta modificadora das relações sociais é evidente. Não há interação física, nem proximidade geográfica. Isso faz com que se criem comunidades virtuais inteiramente estruturadas apenas em um aspecto, o interesse em comum de seus membros e a comunicação entre eles.

O torna a internet numa nova forma de estabelecer laços sociais, de reunir pessoas sob a forma de uma comunidade. Essa modificação é muito importante pois derruba o paradigma geográfico das comunidades locais, constituídas apenas pela proximidade geográfica, graças à reconfiguração do espaço proporcionada pelo mundo digital.

Isso coloca os emojis no papel central da nova comunicação digital, que possibilita uma linguagem universal para as essas comunidades digitais e um avanço muito grande na comunicação humana.

O próximo passo da comunicação na internet, e consequentemente nas redes sociais, é a sua expansão. A tecnologia já está disponível e possui uma inteligência muito grande, o paradigma a se quebrar agora será de conquistar aumento na base de computadores conectados.

Segundo o próprio Facebook (dono do Whatsapp e maior difusor dos Emojis), a rede social atingiu a marca de um bilhão de usuários no ano de 2015, ou seja, uma em cada sete pessoas no mundo possui conta no site. Apesar desse número ter sido apresentado com grande entusiasmo, há ainda muito espaço para crescimento. A maior parte da população mundial não possui acesso à internet, e com isso, não possui as ferramentas de comunicação que dão mais poder ao ser humano contemporâneo. Portanto, o maior desafio não é o da comunicação no mundo digital, e sim o da expansão e democratização da rede mundialmente.

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About the Author

Gabriel Derisio Pós graduado em mídias digitais pela Univerdade Estácio de Sá e bacharel em publicidade e propaganda pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua na área desde 2008. Também é professor e palestrante. Contato: gabriel@derisio.com.br