02/07/2015 Gabriel Derisio

O Banco do Facebook

A tecnologia está mudando um dos mais fundamentais meios que toca cada pessoa no planeta: o dinheiro. A ascensão do Bitcoin nos mostrou o tamanho da demanda que existe para uma moeda digital globalmente aceita.

Entretanto, todas as coisas que contém o avanço do bitcoin — aceitação do comércio, transações instantâneas (o bitcoin leva cerca de uma hora) e a segurança — estão sendo ativamente criadas pela rede social do mundo. Em março, o Facebook lançou pagamento gratuitos peer-to-peer, colocando a empresa no caminho para se tornar uma das instituições financeiras mais poderosas do mundo.

Por Que Isso Faz Sentido

No ano passado, trabalhadores estrangeiros enviaram US$ 583 bilhões para pessoas em seus países de origem, o que é conhecido como remessa. As remessas são um dos maiores influxos financeiros para o mundo em desenvolvimento. Em alguns países, as remessas são responsáveis por até 30% do PIB.

Apesar disso, é caro enviar dinheiro. O mercado é controlado por duas empresas — Western Union e MoneyGram — que detêm um duopólio sobre a indústria global. A taxa média para as transferência é mais de 8%, mas taxas de até 29% continuam sendo cobradas para transferências entre alguns países. Em um relatório recente, o Banco Mundial concluiu: “Forçar trabalhadores imigrantes a pagar até US$ 50 para enviar US$ 200 é errado, especialmente quando eles estão mandando salários que ganharam na esperança de sustentar suas famílias na volta para casa.”

O Facebook não está cobrando taxas sobre as transferências. Embora cobre encargos dos bancos para funcionar, o Facebook diz que não vai repassá-los ao consumidor.

No momento as transferências via Facebook estão limitadas para usuários dentro dos Estados Unidos, mas fontes dentro da empresa confirmaram que vão expandir o serviço para outros países num futuro próximo. Eles ainda vão ver se o Facebook vai cobrar dos usuários uma taxa nominal sobre as remessas transfronteiriças e conversões entre moedas, mas provavelmente será próximo a nada. Segundo Steve Davis, gerente de produto no Facebook, “Nós não estamos tentando lucrar em cima dos pagamentos.”

O Facebook já está bem encaminhado para se tornar uma instituição financeira global. No verão passado, o Financial Times descobriu que o Facebook está perto de receber a aprovação do Banco Central da Irlanda para se tornar uma instituição de moedas eletrônicas em toda a Europa. Isso daria aos usuários a capacidade de guardar dinheiro na rede social, transferi-lo para outras pessoas ou comprar coisas online.

No longo prazo, os pagamentos do Facebook têm o poder de destruir completamente a Western Union e a MoneyGram (boa viagem!) e beneficiar maciçamente milhões de pessoas no mundo em desenvolvimento com bilhões de dólares fluindo mais livremente para esses países. O Facebook está em posição para controlar a maior parte das remessas enviadas globalmente, oferecendo transferências abaixo das taxas do mercado e a melhor experiência móvel. Isso não poderia vir em melhor hora para a rede social, que precisa desesperadamente que o resto do mundo se cadastre, para que possa crescer.

Os últimos dois anos têm sido especialmente difíceis para o Facebook com os mercados da América do Norte e Europeu atingindo a saturação. Não há melhor jeito para o Facebook conquistar novos usuários no mundo em desenvolvimento do que se tornar o aplicativo principal na forma como essas pessoas recebem seus rendimentos a partir de outros países.

Alguém Grita “Corrida do Ouro!”

Enquanto as remessas abrem a porta para o crescimento, esse potencial fica pálido se comparado com a maior oportunidade que o Facebook tem — oferecer às pessoas que não usam bancos hoje uma forma de fazer e-commerce. De acordo com a McKinsey, 2,5 bilhões de pessoas não usam bancos formais ou instituições financeiras. Suas economias são quase totalmente baseadas em dinheiro e sofrem do problema do ovo e da galinha: como ninguém está disposto em converter esse dinheiro para sua forma digital, não há um incentivo para os comerciantes aceitaram pagamentos eletrônicos. Sem nada para sustentar um sistema de dinheiro eletrônico, esse ciclo continua.

Mas o mundo está mudando. Nos próximos cinco anos, quase todas as pessoas do planeta terão acesso à internet. A Ericsson projeta que, em 2019, 5,9 bilhões de pessoas terão smartphones em todo o mundo. Quando cada família do planeta tiver acesso a um smartphone com internet rápida, o paradigma muda: a ideia de que ainda precisamos de bancos físicos, cartões de plástico e papel-moeda desaparece. Isso já está começando a acontecer. No feriado do ano novo chinês (em fevereiro), usuários de WeChat enviaram mais de um bilhão de “envelopes vermelhos” cheios de dinheiro eletrônico para outros usuários.

É fácil imaginar um mundo onde trabalhadores de países em desenvolvimento são pagos via pagamentos peer-to-peer e guardam seu dinheiro no Facebook, compram produtos locais usando transferências e podem pagar por itens usando o Facebook. O efeito que o Facebook poderá ter sobre o mundo como uma instituição financeira eletrônica não é nada menos do que profundo.

O Grande Dia do Pagamento

Então por que o Facebook facilitaria milhões de transferências e compras online para ganhar quase nada? Por um lado, é para ficar mais próximo de tocar o Santo Graal dos dados — como os usuários gastam seu dinheiro. Não vamos nos esquecer que, no final do dia, o cerne do Facebook é definitivamente ser uma rede de publicidade.

Só porque o usuário curtiu uma marca não significa que ele ou ela seja um cliente. Por exemplo, quantos dos 11 milhões de fãs da Lamborghini no Facebook realmente podem pagar por esse carro? Enquanto o Facebook poderia dar um palpite educado, não pode responder a essa pergunta com certeza.

Entretanto, num mundo onde o Facebook possa combinar transações financeiras com grafos sociais, o anunciante poderia ter informações quase perfeitas sobre sua audiência. Nenhuma outra rede de publicidade do mundo seria capaz de alcançar a capacidade de segmentação do Facebook — hábitos de compra, renda, poupança etc.

Mostre-me Sua Grana Digital

Apesar dos pessimistas, o futuro do mundo nunca pareceu tão brilhante. Atualmente estamos atravessando um período massivo de crescimento socioeconômico. Em 2009 tínhamos 1,9 bilhões de pessoas na classe média e ao longo dos próximos 15 anos esse número vai subir para 4,9 bilhões.

Enquanto bilhões de pessoas saem da pobreza para se tornar consumidores, a questão que se apresenta é: como as novas economias do futuro vão operar? Será que ainda vão se apegar às moedas e ao papel que a sociedade tem usado nos últimos 3.500 anos? Ou podem os smartphones e a internet mudar isso tudo?

Quero acreditar que sim. Embora muitas dessas ideias levem décadas para se concretizar, acredito que isso vai acontecer enquanto eu viver. O Facebook tem uma oportunidade incrível diante de si: usar tecnologia para mudar o jeito que o mundo pensa o dinheiro. Eu saí do Facebook uns anos atrás, mas talvez, com sorte, o Mark Zuckerberg vai me dar uma razão convincente para voltar.

Fonte: Medium

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About the Author

Gabriel Derisio Pós graduado em mídias digitais pela Univerdade Estácio de Sá e bacharel em publicidade e propaganda pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua na área desde 2008. Também é professor e palestrante. Contato: gabriel@derisio.com.br