Marketing de Ideologia

(Texto originalmente publicado em www.marketingblog.com.br)

Olá Galera do blog.

Como temos bastante visibilidade e alta qualidade de público leitor, hoje não comentarei nenhuma campanha nem mesmo um case de sucesso. Hoje vou usar esse espaço para fazer uma reflexão sobre uma publicidade que quer nos convencer de algo que precisa ser duvidado. Algo que a gente esquece de se questionar.

Estamos acompanhando cenas na TV, jornal e internet da guerra urbana no Rio de Janeiro, mas poucos fazem uma análise do que há por trás dessa guerra, afinal, a gente só enxerga o que quer. Apontar o dedo para a TV e dizer que aquele bandido tem que morrer ou que o certo é derrubar a favela é o jeito mais cômodo de julgar a situação. Mas apontar culpados sem analisar os motivos não é o mais correto.

Um show foi montado e o palco é a favela. A organização e o patrocínio ficou por conta do governo. Os coadjuvantes, os moradores de uma comunidade pobre. Os protagonistas, policiais fazendo justiça contra bandidos fora da lei. A pirotecnia ficou por conta das balas arranhando o céu, e como num filme, há câmeras para todos os lados. Nesse espetáculo não faltam heróis ou bandidos. O herói se veste com farda e anda de carro blindado.O bandido, de chinelo, é acuado em seu covil do mal.O começo e o meio todo mundo já sabe e já viu, mas será que esse filme tem um fim?

Esse lado negro da força, os traficantes, são moradores junto de trabalhadores e crianças de um local com condições inferiores de moradia e civilidade chamado favela. Alguns desses moradores decidem virar de uma hora pra outra bandidos,mas será que é  tão rápido assim?

A sociedade não admite lacunas ou espaços vazios.Onde falta o estado, o bandido comanda, e consequentemente o tráfico vira o estado.A favela, que é seu território,passa o comando para o traficante.O novo governante, proporciona uma dignidade que nunca subiu o morro.Asfalta rua, faz gato pra levar internet e dá cesta básica para quem tem necessidade.Tudo funciona bem até que chegam os homens da lei e pela primeira vez fazem esse tal estado chegar na favela. Expulsam o tráfico e seus comandantes, e novamente deixam um espaço vazio até tudo ter seu recomeço.

O traficante é o inimigo número um da sociedade atual, mas o real inimigo é o  indivíduo que sustenta esse comércio. O traficante é um instrumento da diversão desse indivíduo que quer ter um “barato” para esquecer dos seus problemas. Esses traficantes matam e são criminosos sim, mas a melhor maneira de resolver essa situação não é simplesmente eliminá-los. Vamos prender os criminosos mas vamos plantar condições dignas para essa população para que não germinem novos “bandidos” da sociedade com armas e armaduras contra o estado. Vamos também oferecer condição de tratamento para quem vai buscar sua felicidade em formato de pó e erva no morro. Não estou aqui para criticar a polícia nem nenhum órgão ou pessoa, e sim, criticar o pensamento que está influenciando quem apóia nessa ideologia de governo.

Com essa guerra nas ruas, o clima de show, e ainda um filme nos cinemas que acaba por idealizar um clichê de policial que faz justiça matando, eu te pergunto: isso não é um marketing para vender ideologia?

Vamos construir casas no lugar dos barracos e escolas onde antes haviam armas, porque somente duvidando de nossas crenças e paradigmas vamos vencer essa batalha e criar cidadãos conscientes na favela e no asfalto

Gabriel Derisio